Contos

Gizela de Brito| Luanda, Angola

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@Gizela de Brito – A Sussurradora d’Estórias

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Texto inserido no Ciclo Especial Ficção - 19 de junho 2024

PROJETO RODAS LITERÁRIAS

Conto

O Homem da Louca

A menina nasceu para ser menina.

Brincou com bonecas. Andou de bicicleta e de patins. Aprendeu a nadar. Teve aulas de piano, de religião e moral e de canto.

Ajudou a mãe nas tarefas de casa. Esgotou-se.

Estudou para ser boa aluna. Brincou com a irmã.

Foi proibida de ir para a casa das vizinhas. Dançou sozinha.

Não foi a festas: não era convidada. Obedeceu.

Falava muito pouco, mas observava. Não reagia, mas criava palavras. Imaginava.

Mandaram-na calar-se e ficar num canto. E calada ficou.

«Se lhe disserem para lá ficar...ela ficará até amanhã.»

Mas no canto encontrou um livro pequenino. Sonhou.

Nos sonhos ninguém entrava. Só quem ela queria ou fantasiava.

Todos os refúgios tinham livros. Os esquecidos, os preteridos, os volumosos, os proibidos, os infames. Todos guardavam mistérios para meninas não-faladoras.

Descobriu um quarto escuro: um canto-maior. Os livros cresceram.

Foi assim…

No quarto, descobriu um baú apinhado de livros. Adentrou num universo de «Guerra e Paz». Transformou-se em uma das «Mulherzinhas», em Ana Maria (a do diário), em Bela da «Bela e da Fera» e tantas outras e mais…

Sem ter idade, foi «A Mãe», «A Dama das Camélias», a «Anna Karenina», «Madame Bovary», Simone de «Memórias de uma moça bem-comportada», a «Boule de suif», a Madalena Constança da «A Morgadinha dos Canaviais» …

Por vezes, foi homem com Dorian Grey, Orlando, Pedro Páramo…

Poetizou. Encarnou Florbela Espanca, Elizabeth B. Browning, Cristina Rosetti, Alda Lara. Mais tarde, já adulta, foi Maya Angelou, Octavia Butler…

Ensaiou roupas masculinas. Vestiu-se de noite.

Passeou-se entre rosas e azuis, roxos e amarelos, verdes e vermelhos. No branco-preto da folha-tinta amanheceu e pernoitou.

A voz, tinha-a cada vez mais sumida. Pronunciava o indispensável.

«Não gosta de falar. Vive no mundo da lua.»

Vivia com o corpo encarcerado, alma livre e letras no papel.

Aproximaram-se homens e mulheres. Não convinha a ninguém.

Permaneceu encarcerada. Sabiam como a aprisionar: a livros, penas e papéis.

«É dar um livro, um papel e ela crê ser escritora ou poeta»

Rabiscava as letras, os traços da lua e do sol.

As folhas eram abandonadas ou retiradas e queimadas.

«É uma fuga. Não precisa de guardar… é lixo, lixo.»

Ensaiava incursões aos campos. Regressava com calhaus, cascas de árvores, paus, folhas e insetos secos.

Criava pequenos mundos em torres de vigia com janelas panorâmicas, cárceres arejados, casinhas de madeira com janelas de ferro forjado talhado à mão, cubículos com livros, gaiolas com pássaros livres.

Uma janela em cada construção de vista virada para o horizonte.

O tempo escoou sem dó.

Com um golpe de má-sorte ou bom-azar viu-se só.

Viajou e assumiu ser diferente no outro lado da vida.

Como não lidava com os sons, tornou-se pintora, desenhadora, escultora, fotógrafa…

«É louca!»

Desvariada continuou.

Um dia, teve um encontro. Olharam-na nos olhos e os olhos de quem a mirou eram de água.

Ele não gostava de ler, nem escrever. Gostava de falar.

Não perguntou nada. Não a enclausurou.

Observava-a escrevinhar e rabiscar. Leu. Os olhos de água formaram um rio.

Mas as folhas riscadas continuaram a desaparecer.

Viveram a vida dos homens e mulheres em paz.

A mulher devorava Leïla Slimani. Mas agora, ela era ela, e o homem não era um ogre.

Escreveu tanto… sonhou tanto…amou tanto…

Uma manhã abriu a janela com vista para o horizonte e para a lua.

E lá estava um livro com a capa da cor do céu, do sol e uns olhos de água.

Abriu e os sons eram os dela, (os desaparecidos).

Gritou e soaram palavras. O homem-não-ogre sorriu, beijou-a e foi trabalhar.

O mundo viu.

«É o homem da louca.»

©️Direitos Reservados Gizela de Brito

3615 caracteres incluindo espaços | 624 palavras


©️Fotomontagem de Gizela De Brito, trabalho de autor. Direitos reservados.

A ilustração acima «O Homem de pedra» foi capa da 2.ª edição da Revista Gira Palavra do Projeto Rodas Literárias de Mozi Neri, Brasil.

https://www.rodasliterárias.art/revista-gira-palavra


Conto

«A Infância Depois de Mim»

A Infância Depois De Mim

Estava com um colete roto sobre a camisa curta, umas sandálias feitas com borracha de pneus da oficina, umas bermudas vermelhas bamboleantes como uma bailarina, e as mãos…as mãos manhosas e a unha longa do dedo mindinho pintada de rubro.

Corria, corria com a vontade do vento forte, o do Oeste, presente até no verão.

Do que é que fugia ele? Da sombra do pássaro que lhe debicara o cocuruto, a exercitar nos cabelos-ramos-secos um ninho? Ou do papagaio que lhe repetira a frase matutina?

«Franku, Franku tánaorraaa».

Mas a folia que o acompanhava, impeliu-me também a mim.

Dois tolos, às voltas, no campo. Os sonhos a perderem-se. A camisa, inválida para o corpo roliço, reclamava.

A camisa falava. Dizia coisas que só se dizem aos meninos que usam calças abalonadas E eu, também, usava.

De repente, a nós juntou-se mais um, mais outro e mais outro. Passámos a ser tantos quantos as unhas das mãos e dos pés que possuíamos.

Todos à volta, a voejar com o vento, com a sombra aos pés e a semear ninhos com as mãos. Todos nós, pássaros, com bicos cor de lacre a imitar as unhas dos mindinhos.

Todos nós com as fantasias à solta, com fios prontos para soltar papagaios de pesadelos e largar rebuçados com as cores do arco-íris. Tudo isto para abraçar amigos e semear promessas para o futuro.

Mas, de repente, surge o vento. Torna-se forte e mais forte. Agressivo e mais agressivo. Abraça revoltas. Derrama raiva em tempestade. E nós tornamo-nos encharcados em penas. Separamo-nos. Cada um de nós escapa-se para o seu abrigo. O dele perde-se da minha vista.

«Franku, Franku», ainda grito.

Ele não escuta. A nuvem abraça e engole o seu corpo. Devora todas as formas.

Não vejo mais corpos pequenos soltos ao vento.

E eu cavo, cavo, cavo. Cavo um buraco tão largo como a dimensão da caverna do ogre.

O ogre tem nome. Tem o nome do sentimento que me assola ao recordar o tempo tão longe de mim.

O tempo do colete curto, das sandálias de pneu e das nossas calças abalonadas. O tempo em que havia Franku.

A revista «Gira Palavra» é uma ação semestral do Projeto Rodas Literárias cuja mentoria é da responsabilidade da educadora Mozi Nerì.

Esta capa é a da 3.ª edição e encontra-se dísponivel no site das Rodas, cujo linque se encontra abaixo.

Nota: O conto «A infância depois de Mim» ©️Direitos Reservados Gizela de Brito

Autoria da ilustração da capa «Ler é Voar»: ©️Direitos Reservados Gizela De Brito


Gizela de Brito

Gosto de escrever, fotografar, desenhar, pintar e poemar.

Tenho paixão pela leitura.

Amo a natureza.

Adoro viver.

SOBRE MIM

Gizela de Brito

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